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  • Danilo de Albuquerque

Dá para ficar rico com a advocacia criminal?


O que é preciso para se tornar um advogado criminalista? Dá para ficar rico fazendo isso? Essas perguntinhas são frequentes na Internet, então vou respondê-las direta e objetivamente (ou não).


Para ser criminalista você precisa de um bacharelado em Direito, carteirinha da OAB, afinidade com as leis penais e de um espírito indom… Calma! Estou brincando. Sei que você não é idiota e muito menos idealista. Então, voltemos à realidade.


Eu começaria dizendo que uma carreira sólida na advocacia criminal depende de fatores muitas vezes fora do seu controle (prometo tratar melhor disso no futuro), o que não deve ser um pretexto para você ficar reclamando. Colhem-se excelentes frutos pelo binômio esforço e constância.


Remorso é uma coisa horrível, não é mesmo? Então vamos falar um pouco dele.


Exagerar na sobremesa, não dar ouvido aos pais ou se relacionar com pessoas erradas geralmente são motivos de arrependimento. Mas vai ser muito difícil você encontrar alguém que tenha se arrependido de ter estudado por uma manhã inteira, ou então de ter passado horas no fogão, preparando comida para pessoas carentes. Isso para dizer o seguinte: estudar sempre é bom. E ajudar os outros também. Principalmente aqueles que precisam de você.


Agora vamos falar dos estudos.


Patrimônio intelectual, como qualquer outro, não se cria da noite para o dia. Ah, Danilo, mas eu preciso fazer uma pós para ser criminalista? Você pode, sim, fazer uma pós, desde que não seja ingênuo a ponto de achar que um pedaço de papel vai fazer de você um especialista. Com pós ou sem pós, você vai precisar de três coisas: tempo, atenção e disciplina. Estude todos os dias e procure escrever as coisas que você aprende. Se você não consegue escrever sobre algum assunto, é porque não o aprendeu direito. Leitura, memorização, processamento e reprodução: essas são as etapas de um estudo bem feito. Ah, Danilo, mas e o senso crítico? Balela. Primeiro conheça as leis, a doutrina e a jurisprudência. Depois faça juízo delas. Antes do senso crítico você precisa de conteúdo. Caso contrário, vai exercer senso crítico sobre nada, e é assim que se constrói um discurso vazio, puramente retórico e que não engana ninguém. Estudo é investimento em médio e longo prazo. Com o tempo, você passará a se sentir mais seguro, principalmente quando outros advogados, juízes e promotores começarem a elogiar sua atuação.


Agora vamos para a parte que as pessoas mais se interessam: quanto ganha um advogado criminalista?


Já adianto que a coisa não é tão simples assim. Há criminalistas que ganham milhões num único caso e há criminalistas sofrendo para sobreviver. Exatamente como em qualquer atividade que se submeta às leis do mercado (leia-se bicho feio e da boca grande, comedor de criancinhas).

Foi-se o tempo em que ser advogado era sinônimo de destaque social. Hoje em dia você precisa ralar. E muito. Esteja mais preocupado com o quanto pode dar do que com o quanto vai receber, e a recompensa virá. Tome cuidado com a soberba. Domínio técnico é fundamental, mas… chega aqui pertinho, deixa eu te contar um segredo: o cliente está pouco se lixando para o seu conhecimento de Luhmann no funcionalismo sistêmico de Jakobs. De você ele espera apenas uma coisa: a resolução de um problema (ou de vários). Então, sabe aquele patrimônio intelectual que você adquiriu? Guarde-o para si (e para outros atores do processo), como se fosse uma arma secreta. Você sabe que não adianta explicar a diferença entre "erro de tipo permissivo" e "erro de proibição indireto" no churrasco do seu primo ou na ceia de Natal. Se nem os seus parentes têm paciência para isso, imagine seu futuro cliente. Não tente impressioná-lo com sua erudição ou conhecimento técnico (a não ser que você esteja dando uma palestra ou uma aula). Dê cada gota do seu suor na resolução do problema dele. Trabalhe para além do que foi contratado. Faça isso por três anos, com todos os seus clientes, e depois venha me dizer se deu certo ou não.


Ah, um pouco de sagacidade também não faz mal a ninguém, ok? Ou vai me dizer que ainda acredita em presunção de inocência? Essa ideia de que a defesa fica parada enquanto o Ministério Público se mata produzindo provas, bem, isso não existe. Pensar assim é coisa de quem nunca enfrentou uma preventiva para a “garantia da ordem pública” (mas que diabos é isso que até hoje ninguém conseguiu definir?), nem precisou agravar habeas corpus por causa da Súmula 691.


Ah, faltou falar da imagem, né? Pois bem. Esqueça essa porcaria. Um banho bem tomado e roupas limpinhas e discretas já resolvem a sua vida. Se for para investir tempo (e dinheiro), invista nos seus estudos e na produção (lícita) de provas para o seu cliente. É disso que o juiz precisa para o absolver, e não da sua Montblanc, seu terno Fioravanti ou do Jeep Compass que você se endividou todo para pagar. As pessoas não são bobas. Alguém despreparado é facilmente descoberto, e se existe algo explosivo para um advogado, que o pode lançar ao fundo do poço, seja ele criminalista ou não, é a combinação de despreparo profissional com carnês bojudos.


Seja você mesmo, estude muito o Direito, leia literatura (também prometo falar mais disso um dia) e oriente seu cliente com clareza e objetividade, de uma forma que ele entenda e se sinta seguro. Trabalhe com diligência e honestidade, principalmente na produção de provas. O resto é com o tempo. É disso que você precisa para ser um criminalista. Quanto você vai ganhar? Bem, se essa é a sua principal preocupação, talvez a advocacia criminal não seja para você.


Um abraço, e até a próxima.

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